O mais honesto lance da história do xadrez - Tabuleiro de Xadrez

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O mais honesto lance da história do xadrez

José Raúl Capablanca
Hoje em dia a prática de suspender uma partida para continuá-la numa próxima sessão é muito pouco utilizada. Os torneios de xadrez rápido e/ou relâmpago geralmente concluem todas as rodadas em um só dia ou no máximo em 2 ou 3 dias. Somente em alguns torneios de longa duração, do tipo todos-contra-todos e em matches pelo título de Campeão Mundial de Xadrez, esta regra é válida e ainda pode ser acionada.

E isto acontece quando uma partida não chega ao fim depois de decorridos 4 horas de jogo. Neste caso, o “lance secreto” é selado em um envelope que fica em poder do árbitro até o reinicio da partida no dia seguinte.

Em seu livro “From beginner to expert in 40 lessons” (De iniciante a “expert” em 40 lições) Alexander Kostyev menciona o adiamento da partida entre Capablanca e Vidmar, em Londres no ano de 1922:

“Vidmar esperou seu oponente com o propósito de abandonar a partida. O tempo foi passando mas Capablanca não aparecia. Olhando para o relógio Vidmar repentinamente constatou que a seta do seu adversário estava para cair. Não hesitando, o GM iugoslavo apressou-se em direção ao tabuleiro e só teve tempo de inclinar o seu Rei no exato momento em que o árbitro estava por declará-lo vencedor pelo tempo. A imprensa inglesa rotulou a ação de Vidmar como “o mais belo lance jamais jogado numa partida de xadrez”.

Na verdade, a posição de Vidmar na partida não estava tão ruim. Poderia até, em condições de jogo normais, tentar um empate e mesmo a vitória (veja a partida no final do artigo). No entanto, ao invés de vencer pelo tempo, pois o “lance secreto” era seu, abandonou a partida, inclinando o seu Rei.

O que fez com que Vidmar tomasse essa decisão nos segundos finais do tempo de José Capablanca só veio a ser conhecido anos mais tarde, através das memórias deixadas por Vidmar:

“Quando nós saímos após suspender a partida, eu falei para Capablanca que provavelmente teria que baixar minhas armas logo. Nós falamos em Frances, idioma que ele era tão pouco proficiente quanto eu. Ele assentiu gentilmente e nós nos separamos."

"No recomeço da partida, o árbitro abriu o envelope selado, fez o meu lance no tabuleiro e acionou o relógio das Brancas. Um pouco mais tarde senti alguém tocando o meu braço: “Capablanca ainda não chegou”, disse o árbitro ansioso. “Ele já perdeu bastante tempo”, respondi e passei a observar outras interessantes partidas em andamento. Algum tempo depois, que não sei quanto, senti a mão do árbitro novamente. Ele estava indescritivelmente preocupado: “Em um minuto ou no máximo dois, o Campeão Mundial vai exceder no tempo”, disse.

"Um opressivo sentimento de inquietação afligiu-me. E se, quando nós conversamos na saída, Capablanca não entendeu o que eu havia dito? E se ele tomou minhas últimas palavras como sendo: “Eu abandono”, escritas no envelope selado? Então, se eu eventualmente ganhasse o 1º lugar no torneio mediante este não entendimento, o seria de uma forma desleal."

"Com dificuldades eu forcei passagem através dos espectadores, cheguei na minha mesa e deitei o meu Rei, sem mais delongas. A seta do relógio caiu. Capablanca apareceu, viu meu Rei deitado e sorriu gentilmente para mim."

"Nós nunca conversamos a respeito da angústia que passei ou a respeito do perigo em que ele, não intencionalmente, se colocou. Eu preciso admitir que a minha posição não poderia ser salva se a partida fosse retomada."

"Eu até esqueci este curioso incidente. Porém, em Nottingham/1936, o Presidente da Federação Britânica de Xadrez apresentou-me como “O HOMEM QUE FEZ O MAIS HONESTO LANCE JAMAIS VISTO NA INGLATERRA”.

O torneio de Londres em 1922 terminou com a vitória de Capablanca com 12 pontos, seguido por Alekhine e Vidmar com 11,5 pontos cada, sendo que o único ponto inteiro perdido por Vidmar nesse forte torneio foi justamente o da partida contra Capablanca. Poderia portanto, ter obtido o 1º lugar, não fosse os ditames honestos da sua consciência.

Eis a partida abaixo:

Capablanca,J - Vidmar,M [D64]
London 1922 - Round 13

1.d4 d5 2.Cf3 Cf6 3.c4 e6 4.Cc3 Be7 5.Bg5 Cbd7 6.e3 0–0 7.Tc1 c6 8.Dc2dxc4 9.Bxc4 Cd5 10.Bxe7 Dxe7 11.0–0 b6 12.Cxd5 cxd5 13.Bd3 h6 14.Dc7 Db4 15.a3 Da4 16.h3 Cf617.Ce5 Bd7 18.Bc2 Db5 19.a4 Dxb2 20.Cxd7 Tac8 21.Db7 Cxd7 22.Bh7+ Rxh7 23.Txc8 Txc8 24.Dxc8 Cf6 25.Tc1 Db4 26.Dc2+Rg8 27.Dc6 Da3 28.Da8+ Rh7 29.Tc7 Dxa4 30.Txf7 Dd1+ 31.Rh2 Dh5 32.Dxa7 Dg6 33.Tf8 Df5 34.Tf7 Dg6 35.Tb7 Ce4 36.Da2 e5 37.Dxd5 exd4 38.Tb8 Cf6 39.Dxd4 Df5 40.Txb6 Dxf2 41.Dd3+ Rg8 42.Tb8+

Neste ponto Vidmar teria feito o seu “lance secreto”, o qual não se conhece (seguramente 42….Rf7), porém no último momento mudou para ABANDONO. (1–0)

Fontes: From beginner to expert in 40 lessons - Alexander Kostyev.

Fairest of them all – Larry Evans.
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