Fischer: um fantasma nas sombras da Internet - Tabuleiro de Xadrez

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Fischer: um fantasma nas sombras da Internet

No ICC, como um desconhecido “guest”, ele propala suas ideias, passeia e arrasa todos os seus adversários

A genialidade do lendário campeão mundial norte-americano Robert “Bobby” Fischer não se limitava apenas à sua desmesurada força enxadrística. Por volta dos anos 70, ele execrava o adiamento obrigatório para o dia seguinte (após 5 horas de jogo) das partidas oficiais, passíveis assim da interferência de terceiros.

Tempos depois, a FIDE adotaria a sessão contínua, sem o adiamento das partidas. Fischer idealizou o “relógio compensador”, que registra um bônus de segundos para cada lance executado. Com isso, os duelistas têm um limite para jogar a partida, mas dificilmente perdem pelo tempo.
Hoje a FIDE adota o “relógio de Fischer” em todas as suas competições. Por último, ante o avanço inexorável da informática, Bobby propôs a criação de um “xadrez aleatório” (Fischer Random), consistindo em sortear a colocação inicial das peças no tabuleiro, revitalizando assim a arte de Caíssa.

A FIDE ainda não adotou essa modalidade revolucionária. Agora, no ICC – International Chess Club – o maior clube virtual do mundo (http://www.chessclub.com), um “guest” vem assombrando o mundo, jogando 1 f3 2 Rf2 3 Re3 4 Rd3 5 c3 6 Rc2 7 De1 8 Rd1, numa clara alusão ao “xadrez aleatório”. Depois desses lances esdrúxulos, ele desenvolve uma força descomunal, irresistível.

Ninguém mais duvida tratar-se de Fischer, operando como um fantasma nas sombras. Ano passado, uma enquete mundial via Internet apontou Bobby Fischer como o melhor jogador do século passado (ou de todos os tempos, se preferirem). Na verdade, não foi o seu titulo mundial o responsável por esse resultado, mas o feito incomparável de sobrepujar a secular e até então indestrutível escola do xadrez soviético.

Até hoje, ninguém percebeu o caminho inverso percorrido por Bobby. Todos os campeões mundiais, sem exceção, fizeram seu “histórico de partidas” após a obtenção do título máximo.Todos, menos Fischer.

Não se pode esquecer de que, ao derrotar o então campeão mundial, o russo Boris Spassky (1972), por “apenas” 4 pontos de diferença e arrebatar-lhe o cetro máximo, ele perdeu rating por isso! Inacreditável.

Ao arquitetar seu “histórico de partidas” antes da consagração definitiva, Fischer deixava transparecer sua intenção de abandonar o xadrez e transformar-se na maior lenda enxadrística de todos os tempos.

O xadrez sempre foi a razão de sua vida. Assim, em sua voluntária desaparição, um detalhe pavoroso escaparia aos cálculos desse gênio cujo QI (184) era superior ao de Einstein: após seu “suicídio”, ele continuaria materialmente vivo. E o que é pior, envolto na túnica gigantesca e asfixiante de sua própria lenda.
 
Alguns mestres brasileiros têm conseguido “chatear” (conversa através da Internet) com ele algumas vezes. Emílio Malbrán, por exemplo, conseguiu instigá-lo para saber, em sua opinião, qual seria o próximo campeão mundial.

– O próximo não me interessa, mas daqui a dois anos, pode anotar: Peter Leko.
Como se sabe, Fischer vive em Budapeste e recebe constantemente a visita do jovem GM-A húngaro Peter Leko.

O principal programador da ChessBase, Frederick Friedel, faz parte do coro de pessoas que acreditam que o “fantasma de Fischer” é apenas um hacker esperto, munido de um excepcional e bem manejado soft de xadrez . No entanto, os monitores do ICC puseram 20 dos mais avançados programas para analisar o comportamento do “fantasma” e nenhum deles sequer se aproximou das magistrais concepções propostas por esse incomparável anônimo.

Fantasma x Zhang Zhong (blitz em 3’, ICC, julho/2001 – Siciliana, B 21)

1 e4 c5 2 f4 d6 3 Bc4 Cc6 4 d3 g6 5 Cf3 Bg7 6 Cg5 e6 7 f5 d5 8 fxe6 fxe6 9 Bb3 Cf6
Se 9…h6 10 Ch3 dxe4 11 Dg4!+/-.

10 0-0 0-0 11 Be3 b6 12 Cc3!? 
Esse lance, sacrificando uma peça, denuncia a “humanidade” de seu executor.

12...Ca5
O GM chinês Zhong – 05.09.78, 2657 – temeroso, evita 12...d4 13 Bxe6+ Bxe6 14 Cxe6 Dd6 15 Cxh7 dxe3 16 Cxh7 Cxh7 17 De1 Cd4 18 Tc1 Cf6 19 Dh4 com igualdade, segundo o Chess-Tiger 14.0.

13 e5! Cxb3
No caso de 13...Ch5 14 g4! Cxb3 15 axb3 d4 16 gxh5 dxe3 e a partida descambaria para uma grossa pancadaria bem ao gosto dos fantasmas que não sentem dor.

14 axb3 Ce8?
Era forçado 14...Ch5, entrando em complicações típicas de um blitz acelerado, de três minutos.

15 Txf8+ Bxf8 16 Df3 Dd7 17 Tf1 Bg7 18 Dh3! h5 19 Tf7 Dxf7 20 Cxf7 Rxf7 21 Df3+ Rg8 22 Cxd5!, 1-0.

Até mesmo o mitológico titã Atlas pediu a Hércules uma momentânea ajuda para descansar um pouco da árdua tarefa de carregar o peso do mundo em suas costas. Imaginem o drama de Fischer, hoje uma sombra furtiva, uma figura arredia e desconfiada a transportar o peso físico da glória que a sua própria lenda lhe usurpou.

Entre outras ocasiões, em 1971 eu estive com Bobby numa festa em Tucuman, na Argentina. Estávamos à mesma mesa e é possível que alguém, como um presságio, tenha cantado naquela ocasião o tango Uno, de Discepolin:
“Dejame que llore como aquel que sufre en vida la tortura de llorar su própia muerte...”


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