Cor Sim Cor Não - Tabuleiro de Xadrez

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Cor Sim Cor Não

Artigo Cor Sim cor Não
Por Tiago Segabinazzi

Ironicamente, no momento em que se postaram como adversários, eles estavam mais iguais do que nunca. Em frente a um tabuleiro de xadrez, dois garotos de dezesseis ou dezessete anos se enfrentariam sem as diferenças que os separam na sociedade. O rapaz branco de Porto Alegre com tênis de marca não levava vantagem nenhuma sobre o menino de pele morena que mora em Alvorada.

Ambos tinham o mesmo material à disposição: dois cavalos, dois bispos, duas torres, uma dama e oito peões para defender seu rei. As oportunidades de cada um seriam definidas pela maneira como empregam seus recursos. O sorteio das peças deixou as cores contrastadas, tal qual se diferem as casas pretas e brancas do campo de jogo. Desta vez, era o negro que saía na frente e, após vinte e poucos lances, saía vencedor.

Ao lado da cidade que se considera a prima irmã de Buenos Aires – a rica econômica e culturalmente Porto Alegre – Alvorada é negligenciada pelo governo gaúcho. Lá, duzentos mil habitantes se espremem em setenta e um quilômetros quadrados de território. Essa gente convive com a criminalidade de suas formas mais variadas, saneamento básico primitivo e infraestrutura semelhante a um jogo de palitinhos. Estradas esburacadas são uma dádiva, porque muitos lugares não têm sequer acessos formais. Quando se pensa em xadrez em Alvorada, a conclusão mais lógica é de que se trata de um presídio.

Neste município está sediada a Embrião, uma organização sem fins lucrativos que percorre o Rio Grande do Sul para tratar de sustentabilidade ecológica com crianças e adolescentes. Para tornar o processo mais interessante é usado o xadrez – que, pela fama de jogo monótono que tem, parece complicar ainda mais as coisas. Não foi o que aconteceu no último domingo de setembro naquela cidade – e nem foi esse o único elemento de ruptura.

Alvorada recebeu o IV Torneio Rotary de Xadrez, na Associação Comercial e Industrial – um local descentralizado do município, com a fachada que lembra alguém que não lavou direito os olhos ao acordar. Um ambiente tão simples quanto honesto. Lá, o passado, as conquistas ou as posses individuais não importam. Não há elenco milionário enfrentando um grupo que joga por um pastel e um refri. O que está em jogo são as dezesseis peças de cada jogador e o que será feito com elas.

Na entrada do salão se destacavam duas crianças jogando num tabuleiro de xadrez de 25 metros quadrados com peças de meio metro de altura – ampliando o exercício mental a uma atividade física. Quem pensa que isso faz parte de uma decoração artística sofisticada se engana – é trabalho de alunos de escolas carentes, feito artesanalmente com jornal e resina. Os artefatos também são confeccionados em tamanho original, para serem distribuídos a quem não tem material para treinar.

Antes de começar o torneio, dois senhores já estavam postados em uma mesa, e discutiam como quaisquer outros senhores discutem normalmente. “O seu peão estava envenenado, se eu não tivesse aceitado estaria em vantagem”, lamentava um. “Minha vantagem veio muito antes disso”, gaba-se o outro. Deviam ter mais de setenta anos cada um. A conversa era um espetáculo ao público, que se espremia para vê-los. Esses atores, à margem da população ativa no mercado de trabalho, se transformam em estrelas sob o palco branco e preto quadriculado.

Algumas rodadas depois, notava-se que dois participantes pouco se movimentavam e permaneciam somente nas mesas doze e treze. O local fora reservado antecipadamente para que eles jogassem somente ali. Ao lado de suas cadeiras repousavam bengalas dobráveis de alumínio. Os tabuleiros tinham as casas diferenciadas por alto e baixo relevo. As peças se distinguiam por meio de um friso.

Na hora do jogo o processo era um pouco diferente do rotineiro. “Dama E4”. Ao invés de mover a peça, o lance desejado era anunciado ao oponente. “Bispo xF3”. A professora Fátima Azambuja os orientou a não tocar no tabuleiro para não entregar a jogada ao adversário. “Cavalo xG6”. Cada lance deve ser memorizado para mentalizar a situação do jogo. “Dama xG6+”. Os alunos fazem parte da ONG ‘Vemos com as Mãos’, que trabalha com a inclusão de pessoas com deficiência visual. “Dama xH7+”. Na entidade trabalham voluntariamente professoras de uma escola municipal que também projetaram a bicicleta adaptada ODKV – ‘O (ciclista) de cá vê’. Há uma proposta similar para cadeirantes e muletantes. Xeque mate!

Tão virtual quanto o ciberespaço proposto por Pierre Levy, o xadrez oferece uma experiência diferente do que se acostumou aquela comunidade separada de Porto Alegre pelo bairro Rubem Berta. O tabuleiro separa os oponentes e fá-los agir como um senhor da guerra que monta campana para proteger seu império enquanto avança com o exército pelo terreno do inimigo para destruir o que construiu. Mas, uma vez terminada a missão, tudo se resolve com um aperto de mão e volta a ser como era. Uma vida em preto e branco.

Página no facebook da ONG Embrião: http://www.facebook.com/embriao
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