A hora e a vez do capivara - Tabuleiro de Xadrez

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A hora e a vez do capivara

Você conhece o Hydrochoerus hydrochoeris? Trata-se do grande roedor da família dos cavídeos, que os índios tupi-guaranis chamavam de kapi’wara ("comedor de capim"). É esse mesmo, nosso amigo e companheiro capivara.

Existem dois tipos de capivaras. O capivara absoluto e o capivara relativo.

O capivara absoluto é todo jogador de xadrez que não é o campeão do mundo. Nesse sentido, podemos dizer que atualmente Kasparov é um capivara (ele não capivarou violentamente em duas partidas contra Kramnik?). 
Talvez devamos ampliar o conceito de capivara absoluto (seria exatamente o aso de adotarmos o conceito de capivara relativo). Assim, capivaras seriam todos os que, nos últimos dez anos, em nenhum momento alcançaram rating superior a 2700. Os jogadores "turistas", segundo a definição com a habitual pouca sutileza de Garry Kasparov. Para o grande jogador ex-soviético e ex-campeão do mundo, só não pertencem ao universo dos turistas e capivaras os que, pelo menos com alguma frequência, são (ou foram) capazes de jogar de igual para igual contra ele. Não é o caso, por exemplo, do autor deste artigo.

É possível ampliar a noção de capivara até onde se queira. Por exemplo, capivaras seriam todos os que não possuem o título de GM (grande mestre internacional). Mais ainda, os que não possuem nem mesmo o título de MI. E assim por diante.

Na verdade, o conceito de capivara é maravilhosamente flexível e democrático: capivara é todo aquele jogador que, acreditamos, joga menos do que nós. Por isso, amável leitor, você pode chamar muitos outros de capivaras e, tenha certeza, também já foi (e é) chamado de capivara por um bando de jogadores. Enfim, uma alegre confraria de macacos que não olham os próprios rabos!

Mas será que isso significa que existe um abismo intransponível que separa o mestre do capivara? É claro que não! A história registra alguns poucos e efêmeros instantes em que o humilde capivara, o desconhecedíssimo amador, o apagadíssimo jogador de fim de semana alcançou a glória suprema de bater o mestre. Essa possibilidade é remotíssima de acontecer numa partida com controle de tempo dilatado (por exemplo, duas horas para cada jogador) mas aumenta um pouquinho em partidas rápidas (25 minutos para cada um). A grande chance de o capivara obter um sorriso favorável da deusa Sorte acontece em partidas de cinco minutos ("ping", "Blitz" ou "relâmpago", como se chamam) e, principalmente, nas exibições simultâneas.

Qualquer um de nós já perdeu uma partida de cinco minutos contra um jogador que, acreditamos, joga menos do que a gente. O ping realmente tem um aspecto de loteria que pode favorecer o adversário mais débil.

As simultâneas são a grande oportunidade do capivara. O mestre enfrenta vinte ou trinta tabuleiros numa sessão de três ou quatro horas. Ou seja, na prática ele irá dedicar apenas uns poucos minutos para cada jogo. A pressa, o cansaço, a dificuldade de se concentrar (precisa mudar a perspectiva a todo momento!), a tendência a menosprezar o que sai da mente enxadrística pervertida do capivara, tudo isso aumenta as possibilidades de erro e proporciona a grande chance da vida do capivara.

Se você já venceu um mestre numa partida simultânea, sabe do que estamos falando. Você guardará a planilha da partida para sempre, mostrará para os netos, colocará numa moldura na parede, abrirá um site apenas para que o mundo também se impressione com sua (sua mesmo e não do mestre) genialidade. Sem falar nas situações em que você pode recordar a grande vitória. Por exemplo, você poderá dizer "Eu não gosto dessa linha de abertura. Até já usei, mas abandonei depois que tive dificuldades para vencer Karpov." Ou então, "Ah, eu hoje levei mate no décimo lance porque estou fora de forma. Queria ver se fosse naquela época em que eu vencia Kramnik!" Ou ainda: "Ah, eu deixei a dama no ar porque aquela vitória sobre Anand me cansou muito."

O GM soviético Iuri Averbach contou que havia muitas exibições simultâneas nas aldeias mais remotas da URSS. Eram verdadeiros acontecimentos nas cidadezinhas, com a população aglomerada em torno dos jogadores, com gritos de "urra" pelos bons lances e "oohhh" para as surpresas. O camponês que conseguia um resultado positivo era colocado nos ombros dos rapazes, recebia beijos das moças bonitas, se tornava um verdadeiro herói local. Às vezes, alguns jogadores mais obcecado pela vitória davam um jeitinho de retirar a torre do tabuleiro enquanto que o mestre não estava olhando. Uma boa maneira de reforçar a posição! O resultado era inevitavelmente a pergunta do mestre: "Ué, cadê a torre que estava em c3? Devolvam imediatamente!"

Certa vez, um amigo nosso aqui do Brasil jogou uma simultânea contra o GM filipino Eugenio Torre. Entraram num final de peões que parecia empatado. Os perus que ficam em volta para ver e dar peruada também murmuravam "está empatado". Foram para o canto, armaram o tabuleiro, empurraram os paus para lá e para cá, acumularam os palpites e análises e chegaram ao veredicto: não tem jeito não, está empatada mesmo. Nosso amigo dirigiu-se ao grande mestre: "Tablas?". Torre, que estava no apogeu de sua carreira (chegou a participar do Torneio de Candidatos), simplesmente respondeu: "No". E a multidão de perus disse "ooohhh". Logo vieram os cochichos "Esses GMs são muito prepotentes. Será que ele não se conforma com a situação?". Torre ainda voltou ao tabuleiro algumas vezes. Executou rapidamente alguns movimentos inesperados de peões e de rei até que... venceu a partida!

Pois é, amável leitor. Não queremos mais importuná-lo com análises científicas sobre a natureza dos capivaras. Vamos fazer alguma coisa mais amena. Que tal conhecer algumas partidas em que amadores e ilustres desconhecidos derrotaram grandes mestres de primeiríssima linha?

Para começar, o inacreditável: vencer a "máquina" Capablanca em pouquíssimos lances? Somente numa exibição simultânea, é claro. A autora da proeza foi a senhorita Mary Bain. O local? Só poderia ser o da fábrica dos sonhos, Hollywood...

Capablanca – Bain, Mary
(Simultâneas em Hollywood 1933)

1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Cc3 Cf6 4.Bb5 Bc5 5.O-O O-O 6.Cxe5 Te8 7.Cd3 [Lance pouco jogado. O usual aqui é 7.Cf3 Cxe4 8.d4 Cxc3 9.bxc3 Bf8 (9...Be7 10.d5 Cb8 11.Bf4 Maróczy-Pillsbury, Nürnberg 1898) 10.Cg5 (10.c4 h6 11.Bf4 a6 12.Ba4 Ca5 13.Ce5 Kámsky-Winants, Tilburg 1992; 10.Bd3 h6 11.Bf4 d6 12.Tb1 Df6 13.Bg3 b6
Schlechter-Marshall, Montecarlo 1904) 10...h6 11.Ch3 d6 12.Df3 Bd7 13.Tb1 Tb8 14.Dg3 Beliavsky-Ljubojevic, Linares 1993.] 7...Bd4 [7...Bb6 8.e5 Cxe5 9.Cxe5 Txe5 10.d4 Te8=] 8.Ce2?! [Parece melhor 8.Te1 Bxc3 9.dxc3 Cxe4 10.Bf4 com ligeira vantagem branca.] 8...Txe4 9.Cxd4? [Seguramente, teria sido melhor 9.Cdf4 Bb6 (9...Be5 é ruim por interromper o retorno da torre preta: 10.d3 Tb4 11.Bxc6 dxc6 12.c3) 10.d3 Te8, com uma posição confortável para as pretas.] 9...Cxd4 10.Ba4?? [Erro grosseiro do grande Capablanca, talvez perturbado com a beleza da adversária. Era necessário 10.f3 Te8 11.a4 (de modo algum 11.Ba4? b5 12.Bb3 c5 13.Cf4 g5 14.Ch3 c4 ganhando) 11...c6 12.Bc4 d5 13.Ba2 Bf5 e de qualquer modo a posição preta é bastante superior.]
10...Ce2+ 11.Rh1 Cxc1 0-1 Capablanca abandonou porque a perda da peça era inevitável.

Em 1943, Alekhine vivia a decadência final. Contudo, mesmo nessa época ele foi capaz de cultivar belas flores no tabuleiro, flores regadas a bastante álcool é verdade, mas ainda assim perfumadas. Para termos uma ideia, basta sabermos que ele foi capaz de vencer bons torneios em Munique 1942, à frente de Keres, Foltys, Bogoljubow, Kurt Richter e Barcza, em Salzburgo 1942, novamente à frente de Keres e Bogoljubow e em Praga 1943 (2½ na frente de Keres, que já era uma estrela de primeira grandeza mundial, vencedor do célebre torneio Avro de 1938!). Em Guijon 1944, Alekhine enfrentou os melhores jogadores espanhóis e fez 7½ pontos em 8 (apenas o jovem A. Pomar foi capaz de controlá-lo).

A partida abaixo foi um amistoso Blitz (partida relâmpago – de 5 minutos para cada jogador). Alekhine envolveu-se numa variante complicada, até hoje pouco conhecida pela teoria, e ficou rapidamente perdido.

Perez – Alekhine
(Madrid 1943, Blitz)

1.e4 e5 2.Cc3 Cc6 3.f4 exf4 4.Cf3 g5 [Uma escolha muito arriscada. Mais sólido é 4...Be7!? 5.Bc4 c6 6.d4 Bh4+ 7.Rf1 Bg4 8.Bxf4 Cge7 Hector-Skembris, Genova 1989] 5.d4 g4 [Já não é fácil encontrar boas continuações para as pretas. A experiência tem mostrado que 5...Bg7 geralmente leva à superioridade branca. Por exemplo, 6.d5 Ce5 7.d6 Cxf3+ 8.Dxf3 cxd6 9.h4 Be6 10.g3 g4 11.Dxg4 Zeitlin-Petran, Budapeste 1992.] 6.Bc4!? [As brancas sacrificam uma peça para obter um ataque muito difícil de enfrentar.] 6...gxf3 7.Bxf4 [7.O-O Cxd4 8.Bxf4 Bg7 9.e5 d5! 10.exd6 c6 com superioridade negra, Zeitlin-Ciolac, Wattens 1992.] 7...fxg2 [Não queremos apresentar as dezenas de variantes e subvariantes complicadas que são – na esmagadora maioria – favoráveis às brancas. Contudo, a resistência preta seria bem maior com 7...Bg7 (ao não tomar 7...fxg2 as pretas tiram a oportunidade de as brancas explorarem tanto a diagonal h5-e8 e a coluna ‘f’) 8.Dxf3 Cxd4 9.Dg3 Df6 10.O-O-O Dg6 !] 8.Bxf7+! [Destrói a proteção do rei, abre possibilidades na diagonal h5-e8 e na coluna ‘f’.] 8 ...Rxf7
[Se 8...Re7 9.Cd5+ Rxf7 10.Dg5+ Rg7 11.Tg1 ganhando. Por exemplo, 11...Be7 12.Txg2+ Rf8 13.Tf2 Cf6 14.Bh6+ Rg8 15.Cxf6+ Bxf6 16.Dd5#.] 9.Dh5+ Rg7 10.Tg1 Cge7 11.Bh6+ Rg8 12.Txg2+ 1-0

A partir da segunda metade dos anos 1930s até o começo dos anos 1960s o norte-americano Samuel Reshevsky estava seguramente entre os melhores do planeta. Derrotou de forma convincente jogadores do calibre de Capablanca, Alekhine, Botvínnik, Smyslov e Bobby Fischer. Esteve a um passo da disputa do título mundial ao se colocar em segundo lugar no Torneio de Candidatos de 1953. A partida abaixo foi jogada numa exibição simultânea em Israel. Para termos uma ideia da alta qualidade do xadrez de Reshevsky naquele momento, basta recordamos alguns resultados de torneios da época: Dallas 1957, 1º lugar ao lado de Gligoric e na frente de Szabo, Larsen, Najdorf, Olafsson. Buenos Aires 1960, 1º lugar ao lado de Korchnnoi e na frente de Szabo, Taimanov, Gligoric, Uhlmann, Bobby Fischer, Ivkov, Pachman, Eliskases.

Reshewsky – Margolits
(Haifa, simultâneas, 1958)

1.d4 Cf6 2.c4 e6 3.Cc3 Bb4 4.e3 c5 5.Cge2 d5 [Mais usual aqui é 5...cxd4 6.exd4 d5 7.a3 Bxc3+ 8.Cxc3 dxc4 9.Bxc4 Cc6 10.Be3 O-O 11.O-O h6, Miles-Hulak, Bad Wörishofen 1985.] 6.Bd2 [6.a3 Ba5 7.cxd5 dxc4 8.Dxd4 exd5 9.De5+ Rf8 10.Bd2, Podgaez-Shamkovich, URSS 1972.] 6 ...Da5 7.a3 Cc6 8.axb4? [O correto é 8.cxd5 Cxd5 (8...exd5 9.Cf4 Bxc3 10.Bxc3 Dd8 11.dxc5 com grande vantagem branca) 9.e4 Bxc3 10.Cxc3 e as brancas têm um peão a mais e posição superior.] 8 ...Cxb4 9.Txa5?? [Claro que também perderia 9.Cf4 Dxa1 10.Dxa1 Cc2+ 11.Rd1 Cxa1.] 9 ...Cd3# mate 0-1

Numa paráfrase ao famoso romance beatnik de J. Kerouac (On the road), em 1964 Bobby Fischer também botou o pé na estrada e percorreu os Estados Unidos de costa a costa jogando simultâneas contra centenas de capivaras. Ao todo, foram 1882 partidas! Fischer ganhou 1719, empatou 102 e perdeu 61. Seu escore foi de 94%, considerado excelente. De qualquer modo, surpreso leitor, houve 61 felizardos que levarão para o túmulo o feito de terem vencido Fischer!

Para termos uma ideia das condições em que eram realizadas essas simultâneas, vejamos como Fischer perdeu um peão no segundo lance (!): 1 e4 Cf6 2.Cf3?? Cxe4. Um lance horroroso desse tipo se explica pela velocidade com que Fischer precisava jogar. Com quase toda a certeza, ele olhou o tabuleiro por uma fração de segundo e imaginou que estivesse jogando 1.e4 e5, daí seu lance imediato 2.Cf3. Foi então que percebeu que seu adversário havia respondido com a defesa Alekhine... Esse pequeno e significativo episódio resume as condições de Fischer e de seus adversários. As dezenas de fortes amadores conseguiram vencer porque Fischer jogava muito, muito rápido. Fácil de compreender: Fischer enfrentava 60 ou mais tabuleiros. Façamos as contas. Se ele dedicasse apenas um minuto por tabuleiro, gastaria uma hora para toda a simultânea. Deveríamos acrescentar ainda o tempo para deslocar pelo salão, tomar uma água, respirar um pouco. E aí já teríamos várias horas. Calculando tudinho, podemos concluir que Fischer dispunha apenas de uns poucos segundos para estudar cada lance. Um amador que empatou com ele na simultânea, Irving Pierce, pôs os pingos nos iis: "avalio que para toda a nossa partida Fischer gastou uns quatro minutos, ao passo que eu utilizei quatro horas de reflexão!"

Além disso tudo, pense no ritmo incessante da exibição, o mestre passando de tabuleiro para tabuleiro, de posição para posição, de cálculo para cálculo. Com gente falando, fotógrafos, gritinhos de crianças, calor, garotas louras bonitas e peitudas fixando os olhos em cima de Fischer... Pense na necessidade de concentração, de flexibilidade e velocidade mental, amigo leitor. Mesmo um gênio como Fischer acabava se desconcentrando aqui e ali, dando oportunidade para que fortes amadores arrancassem um empate ou até conseguissem o ponto inteiro.
Justificativas a parte, prestemos homenagem a esses heróis anônimos que conseguiram vencer Bobby Fischer:

Fischer – Dondis
(Fitchburg sim 1964)

1.e4 e5 2.Cc3 [A abertura vienense tem aparência pacífica mas oculta muito veneno.] 2 ...Cf6 3.Bc4 Cxe4
[Também se pode jogar 3...Cc6 4.d3 Bb4 5.Bg5 h6 6.Bxf6 Bxc3+ 7.bxc3 Dxf6 8.Ce2 d6 Perez-Kuzmin, Andorra op 2000.] 4.Dh5 Cd6 5.Bb3 Cc6 6.d4 [Lance raríssimo. Hoje em dia se dá preferência a 6.Cb5 g6 7.Df3 f5 8.Dd5 De7 (também se joga 8...Df6 9.Cxc7+ Rd8 10.Cxa8 b6 11.d4 Cxd4 12.Cf3 Bb7 Sulkos-Motilev, Linares op 2000.) 9.Cxc7+ Rd8 10.Cxa8 b6 11.Cxb6 axb6 12.Df3 Bb7 com jogo complicado.] 6 ...Cxd4 7.Cd5 Ce6 8.Dxe5 c6 [O GM inglês J. Nunn avalia que a posição está equilibrada. Mas estará mesmo?] 9.Cc3 [Quais seriam as opções? a) 9.Bg5? Dxg5! 10.Cc7+ Re7 (naturalmente, não 10...Rd8? por 11.Cxe6 ganhando) 11.Dxg5+ Cxg5 12.Cxa8 b6 (o cavalo branco está preso) 13.O-O-O Rd8 14.Ce2 Bb7 com grande vatagem preta; b) 9.Cf4 De7 10.Cf3 Cf5 11.O-O (11.Dxf5?? Cd4+) 11...Ced4 12.Dxe7+ Bxe7 13.Cxd4 Cxd4 com vantagem preta, segundo análises do GM Adams.] 9 ...Df6 [Na avaliação do GM L. Evans, as pretas já têm posição melhor.] 10.Dxf6 [As pretas continuariam superiores depois de 10.De2 Be7] 10 ...gxf6 11.Cge2 Cf5 12.g4 Cfd4 13.Cxd4 Cxd4 14.Be3 Cxb3 [Naturalmente, as trocas favorem as pretas, que entram no final com um peão a mais. Fischer nada pode fazer.] 15.axb3 d5 16.Txa7 Txa7 17.Bxa7 Bxg4 18.Bd4 Be7 19.Rd2?? [Erro incrível que leva à perda da peça. É também uma demonstração da precariedade da qualidade do jogo do grande mestre numa simultânea, daí as oportunidades que podem ser aproveitadas pelos capivaras de plantão. (De qualquer modo, depois de, por exemplo, 19.Ca4 Tg8 as pretas estariam muito superiores).] 19 ...c5 0-1

Na partida abaixo, Fischer comete um erro horroroso e sofre a humilhação de ter que abandonar em apenas doze lances. Conta-se que toda a vez que perdia uma partida nas simultâneas, ele educadamente cumprimentava o adversário e dizia "Obrigado pela lição". Eis aí a lição de Fischer:

Fischer – Burger
(San Francisco sim 1964)

1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bc4 Cf6 4.Cg5 d5 5.exd5 Cd4 [Uma escolha mais rara. O usual aqui é 5...Ca5.] 6.c3 b5 7.Bf1 Cxd5 8.cxd4 Dxg5 9.Bxb5+ Rd8 10.Df3 Bb7 11.O-O exd4 [11...Tb8 12.Dg3 Dxg3 13.hxg3 exd4 14.d3 Shabalov-Ivanov, Parsippany 1996} 12.Dxf7?? [Distração imperdoável. As brancas dispunham de várias boas continuações como 12.d3 Cf4 [12...De5!? Paoli-Robatsch 1967) 13.Bxf4 Dxb5 14.Dg3 c5 15.Ca3 Dd7 16.Cc4 Winants-Ferguson, GBR 1998] 12 ...Cf6 0-1Depois de 13.g3 Bd5 as brancas perderiam muito material.

Nem sempre o amador de hoje é o amador de amanhã. Nem sempre o capivara de hoje é realmente um capivara. Em 1971 Fischer estava no apogeu de sua carreira. Meses depois, consagrar-se-ia campeão do mundo. Depois de derrotar T. Petrosian pelo torneio de candidatos, dedicou-se a algumas sessões simultâneas contra jogadores argentinos. É possível que o preconceito etnocêntrico tenha funcionado um pouco, com o norte-americano considerando que "amadores do terceiro mundo" não teriam muito a oferecer. Mas um país de cujos campeonatos nacionais participaram GMs da categoria de Najdorf, Eliskases, Panno, Pilnik, Guimard, Rossetto e Quinteros deveria ter sido levado mais a sério...

Fischer – Garcia Palermo
(Buenos Aires sim 1971)

1.e4 e5 2.f4 d5 3.exd5 e4 4.Bb5+ c6 5.dxc6 Cxc6 6.d3 Cf6 7.dxe4 [7.De2 Bg4 8.Bxc6+ bxc6 9.Cf3 Da5+ 10.Bd2 Db6 11.Cc3 Dxb2 12.O-O Chigorin-Marco, Viena 1898.] 7 ...Da5+ 8.Cc3 Bg4 9.Dd4 Be7 10.Da4 Db6
[Depois de 10 ...Dxa4 11.Ba4 os dois peões garantiriam um fácil final para as brancas.] 11.h3 O-O-O 12.Bxc6??
[Incrível. As brancas poderiam vencer com 12.hxg4. Por exemplo: 12...Cxg4 13.Ch3 Bh4+ (agora, esse xeque não é mais assustador) 14.Rf1 Cf2 15.g3 Cxh1 16.gxh4 Cg3+ 17.Rg2 Ch5 18.Cd5 Dc5 19.Be3 Dd6 20.Bxc6 bxc6 21.Da6+ Rd7 22.Dxa7+ Re8 23.Cc7+ etc.] 12 ...Cxe4 13.Bd7+ [Não há o que fazer. A ameaça preta de Df2# é muito forte: a) 13.Bxe4 Bh4+ 14.Rf1 Df2#; b) 13.Bxb7+ Rb8! (13...Rxb7?? 14.Dxe4+ ganhando) 14.Bxe4 Bh4+ etc.] 13 ...Txd7 14.Dxd7+ [Forçado para evitar o mate.] 14 ...Bxd7 15.Cxe4 Bc6 0-1. As brancas não tinham como se defender: 16.Cg3 Bxg2 17.C1e2 (17.Th2 Dxg1+) 17...Bh4! 18.Bd2 (18.Tg1 Bxg3+) 18...Bxg3+ 19.Cxg3 Te8+ 20.Rd1 Dxb2 e as brancas não escapam do massacre.

O soviético Leonid Stein foi um dos mais fortes jogadores do mundo na década de 1960 e começo da década de 1970, quando faleceu prematuramente (1973), o auge de suas forças. Venceu três vezes o poderíssimo campeonato da URSS! Seu compatriota Mark Ruderfer não era exatamente um capivarão. Mas, honestamente amigo leitor, quem de nós já tinha ouvido falar desse ilustre desconhecido? Pois o ilustre desconhecido entra na história ao triunfar de forma convincente:

Ruderfer – Stein
(União Soviética 1972)

1.e4 c5 2.Cf3 Cc6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cf6 5.Cc3 d6 6.Bg5 Da5 [Uma variante raramente utilizada. O usual aqui é 6...e6.] 7.Bxf6 gxf6 8.Cb3 De5 9.Dd2 [9.Bd3 f5 10.O-O Keres-Karner, Parnü, 1971] 9...f5 10.f4 De6 11.Cd4 Cxd4 12.Dxd4 Tg8 13.O-O-O [13.Cd5 Dxe4? (13...Rd8 14.O-O-O=) 14.Dxe4 fxe4 15.Cc7+ Rd8 16.Cxa8, Eley,B-Markland,P, Canterbury 1973.] 13...fxe4 14.Cd5 Rd8 [14...Dd7?? 15.Bb5! ganhando.]
15.Dc4 Dd7 [Se 15...Bh6, então 16.Dc3 com vantagem] 16.Dxe4 f5? [O erro fatal. Era necessário 16...Tg6 embora as brancas conservassem superioridade depois de 17.Db4 Dc6 18.Bd4.] 17.Db4 b6 [Se 17...Dc6 18.Bb5 Dc5 19.Dxc5 dxc5 20.Cb6 ganhando. Ou então 17...De6 18.Bb5 Bd7 (18...Txg2 19.Dc4 Bd7 20.Dc7+ Re8 21.The1) 19.The1 Dh6 20.Bxd7 Rxd7 21.Dexb7+ Re8 22.Txe7+ Bxe7 23.Dxe7#.] 18.Bb5 Db7 [18...De6 19.Dc4
19.The1 Tg7 [A variante 19...e6 mostra a dimensão do massacre a que foram submetidas as pretas: 20.Cf6 Tg6 (20...Txg2 21.Txd6+ etc) 21.Txd6+ Rc7 22.Dd4 Bxd6 (22...Txf6 23.Tc6+ Dxc6 24.Bxc6 ganhando) 23.Ce8+ Rd8 24.Dxd6+ Bd7 25.Cc7 Dc8 (25...Dxc7 26.Df8+) 26.Txe6 Tg8 (26...Txe6 27.Cxe6+ Re8 28.Df8#.) 27.Te7 ganhando.] 20.Dxd6+ 1-0. Stein abandonou diante da evidência de 20...Bd7 [20...exd6 21.Te8#] 21.Cxe7 Txe7 22.Txe7 Bxe7 23.De6 Rx8 24.Txd7.

Nenhum jogador conseguiu vencer tantos torneios de primeira categoria quanto o soviético Anatoli Karpov, campeão mundial de 1975 a 1984. Em 1990, Karpov ainda era o único jogador do mundo capaz de enfrentar de igual para igual o fantástico Kasparov. Mas na partida abaixo, o amador jogou com bastante consistência e aproveitou a impossibilidade de o grande mestre jogar com precisão durante uma exibição simultânea. Delicie-se, amigo leitor, e sonhe com uma possibilidade igual:

Karpov – Mercuri
(Harvard sim 1990)

1.e4 c5 2.Cf3 e6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cf6 5.Cc3 Cc6 6.Cbd5 d6 7.Bf4 e5 8.Bg5 a6 9.Ca3 b5 10.Cd5 Be7 11.Bxf6 Bxf6 12.c3 O-O 13.Cc2 Bg5 14.a4 bxa4 15.Txa4 a5 16.b4? [Dez anos depois, esta posição ainda está na moda. Acontece que Kárpov menospreza o adversário e joga um lance experimental. Não obstante, teria sido melhor jogar 16.Bb5 (também se tem jogado 16.Bc4) 16...Bb7 (outra variante muito jogada hoje em dia é
16...Ce7 que é seguida, por exemplo, de 17.Ccb4 Bd7 18.Cxe7+ Bxe7 19.Bxd7 axb4 20.Bc6 Txa4 21.Dxa4 bxc3 22.bxc3 Db8 23.O-O Bd8 ½-½ Svidler-Ivanchuk, Rubinstein mem Polanica Zdroj 2000.) 17.Cce3 Bxe3 18.Cxe3 Ce7 19.O-O Tb8 (19...Db6 20.Dd3 f5 21.exf5 e4 22.De2 Cxf5 23.Bc4+ Rh8 24.Td1 Short-Gelfaand, Pamplona 2000.) 20.Dd3 Db6 21.Bc4 Bc6 22.Ta2 Tfd8, Kaspárov-Van Wely, Wijk aan Zee 1999.] 16 ...Bb7 17.Bc4 [17.b5 Cb8 18.Ca1 Cd7 19.Cb3 Bxd5 20.exd5 Cb6 21.Txa5 (21.Ta3? Dc8 22.Dd3 a4 23.Ca1 Dc5+ ganhando, Vesely-Hardicsay, Schwarzach 1997) 21...Cxd5 22.Dxd5 Txa5 23.h4! (23.Cxa5 Dxa5 e as pretas têm ótimo jogo) 23...Bf6 24.Cxa5 Dxa5 25.Th3 as pretas estão levemente superiores.] 17 ...Rh8 18.O-O g6 19.Dd3 f5 20.b5?! Ce7 21.Ba2 Tc8 22.exf5 gxf5 23.Cxe7? [23.Cce3 Te5 24.c4=] 23 ...Dxe7 24.Txa5 [24.c4!? Be4 25.Dc3 Bd7 26.f3 Bxc2 27.Dxc2 Dxb5 28.cxb5 Txc2 29.Txa5 Be3+ 30.Rh1 Tb2 e a vantagem preta não é de fácil concretização.] 24 ...Be4 25.Dd1 Txc3 26.Cb4 Dc7 27.Ta6 Tc1 [O domínio da coluna ‘c’ confere uma vantagem decisiva às pretas.] 28.De2 Dc5 29.Txc1 [Não adiantaria 29.Cd3 Txf1+ 30.Dxf1 Dxb5]
29 ...Dxc1+ 30.Df1 Dd2 31.Ta4 Tc8 32.Bc4 Txc4 0-1 

E agora, mãos à obra amigo leitor! Existe um número infinito de capivaras prontos para nos derrotar e depois, alegremente, dizer que venceram mais um capivara!
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