Entrevista com Magnus Carlsen - por Eben Harrell - Tabuleiro de Xadrez

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Entrevista com Magnus Carlsen - por Eben Harrell

Magnus Carlsen - entrevista
Aos 13 anos ele se tornou o 3º Grande Mestre mais jovem da história. Há poucos anos atrás, ele já estava derrotando os melhores do mundo. E em 1º de janeiro de 2010, Magnus Carlsen, com 19 anos, será a pessoa mais jovem a ocupar o topo do ranking no xadrez. A TIME esteve com o Grande Mestre durante um torneio em Londres para sondar a mente de um gênio do xadrez.

Quando as pessoas descobrem que você é o primeiro no ranking do xadrez mundial você precisa lidar com a ideia presumida de que você é 40.000 vezes mais inteligente que elas?

Sim, isso pode ser um pouco enfadonho. Eu tento explicar às pessoas que eu sou como elas, não sou nenhum tipo de aberração. Posso ser muito bom no xadrez mas sou uma pessoa normal.

Bem, seu intelecto claramente não é normal. Quantos lances você consegue calcular antecipadamente no tabuleiro?

Às vezes de 15 a 20 lances a frente. Mas o truque é avaliar a posição ao final destes cálculos.

Seu treinador, o ex-campeão mundial Garry Kasparov, diz que sua força não é o cálculo, mas sim a habilidade para intuir os lances corretos, ainda que seu propósito final não seja claro. Isso está certo?

Eu sou bom em sentir a natureza da posição e onde eu devo colocar minhas peças. Você precisa escolher o lance que parece certo, às vezes; isso é intuição. É bem difícil de explicar.

Kasparov fala sobre sua vida fora do xadrez, seu movimento político dissidente na Rússia?

Ele é meu treinador. Quando o assunto é sua luta com Putin eu prefiro não me envolver.

O Grande Mestre inglês Nigel Short diz que programas de computador de xadrez, que hoje vencem os melhores enxadristas humanos regularmente, estão eliminando alguns dos mistérios do jogo. Ele os compara à “moto-serras desmatando a Amazônia”. Como você vê isso?

Eu entendo o ponto de vista dele. Qualquer amador pode ver partidas de alto nível e ao invés de apreciar o mistério por trás dos lances eles irão simplesmente olhar a avaliação do programa. Eu não acredito que os programas irão achar todas as ideias sem deixar espaço para imaginação.

Você usa computadores em seu treinamento?

Eu não uso tabuleiro quando estudo sozinho. As pessoas vem até minha casa e dizem “você deve ter vários tabuleiros e peças”. Eu digo “bem, devemos ter algum por aí, mas não tenho certeza.”

Você vê o xadrez como um jogo de combate ou de arte?

Combate. Eu tento vencer quem está sentado à minha frente e tento escolher os lances que são mais desagradáveis para ele e seu estilo. É claro que algumas partidas realmente bonitas parecem arte, mas esse não é meu objetivo.

Você tem alguma explicação para o por que mais mulheres não entram no grupo da super elite?

Judit Polgar já esteve no top 10, mas não sei por que não houveram outras. Ao contrário de outras pessoas, eu não acho que existam quaisquer razões genéticas.

Você não fica com a explicação pseudo-psicológica de que seus instintos maternais as previnam de sacrificarem peças prontamente?

Na verdade, muitas mulheres jogam de forma agressiva. Então eu não acredito nisso.

O xadrez teve vários prodígios, mais reconhecidamente Paul Morphy e Bobby Fischer, que acabaram perdendo a sanidade. Você teme que a tentativa de ser mestre em um jogo com variações que beiram o infinito possam te deixar insano?

É bastante difícil prever o futuro, mas agora eu não me vejo ficando louco. É fácil ficar obcecado pelo xadrez. Foi o que aconteceu com Fischer e Morphy. Eu não tenho a mesma obsessão. Eu adoro o jogo e adoro competir, mas não sou obcecado pela disputa.

 Tradução do inglês: Daniel Brandão

Texto original da revista Time
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